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‘É hora de uma revolta coletiva pela educação no Brasil’, diz educador António Nóvoa

“Quem não sai do lugar não se educa”. Inspirado nesse lema, António Nóvoa, reitor honorário da Universidade de Lisboa, viajou o mundo ensinando e aprendendo sobre a missão das escolas. Em visita ao Brasil para o lançamento do Prêmio Itaú-Unicef, Nóvoa, que é doutor em Ciências da Educação pela Universidade de Genebra (Suíça) e em História pela Sorbonne (França), criticou a proposta de escolas sem partido, defendeu a discussão sobre gênero e sexualidade nas aulas e convidou a população a se engajar em uma revolta coletiva pela educação pública no Brasil. Na entrevista a seguir, o professor convidado em Colúmbia (EUA), Oxford (Inglaterra) e Paris 5 defende ainda a maior interação entre professores de diferentes escolas e uma reforma na relação com os alunos, com ajuda da tecnologia. A convite do reitor da UFRJ, ele está ajudando a montar um complexo de formação de professores no Fundão que vai agrupar todas as licenciaturas em parceria com escolas da rede pública.

Como fortalecer o papel social da educação em um contexto violento, como o do Rio?

A escola depende mais do ambiente em que está inserida do que é capaz de transformá-lo. Quando uma nação é boa, sua escola é boa. Quando a nação é má, a escola não vai transformá-la em boa. Não ponham expectativa exagerada. Achar que a escola vai transformar o mundo é meio caminho andado para que ela não faça nada. Agora, ela tem um poder extraordinário, que é a capacidade de educar as crianças. Se conseguirmos espaços onde haja cultura do diálogo, da tolerância, da capacidade de conviver, podemos ganhar ali uma geração que depois pode transformar grande parte da sociedade. Já dizia o pedagogo francês Philippe Meirieu: “A escola ou a guerra civil”.

A escola integral tem mais potência neste sentido?

Sou por princípio contra a ideia filosófica da escola integral. Integral é a vida. A ideia de manter essas crianças na escola, quanto mais horas melhor, não me é simpática. Quero que a educação esteja na sociedade, nas famílias. Defendo a ideia do espaço público da educação, que a cidade seja educadora e a criança tenha outros espaços culturais, sociais. Mas tenho que reconhecer que há realidades sociais tão violentas, como a do Rio, onde é preciso ter escola integral. Quero proteger as crianças, mantê-las o máximo de tempo possível ali. É como as cotas: horríveis, mas necessárias.

Como manter as crianças concentradas e interessadas no mundo de dispersão e informação abundante da internet?

Não faz sentido imaginar uma escola fora da sociedade. É tão absurdo quanto no século 16, quando se tentou impedir a entrada de livros porque os alunos tinham que memorizar. No século 20, baniram os filmes, porque iam acabar com a moral. Hoje a forma de pensar, de se relacionar, é diferente. Se não percebermos isso, não há educação. É claro que não quero celular em sala para a criança fazer outras atividades, mas tenho que ser capaz de integrá-lo no trabalho pedagógico. A escola não é onde se vai assistir a aulas, mas onde todos vão, em conjunto, descobrir como trabalhar. O professor deve recorrer ao apoio dos alunos para se organizar nas dimensões digitais. Para isso precisamos de uma formação que não seja só interessada em ver o “negócio”, em decidir sobre quantas disciplinas, aulas, teoria curricular. Um bom modelo é o da Escola de Medicina da Universidade de Harvard. Acabaram com as aulas expositivas, não precisa, está tudo na internet. Organizam-se em torno de grandes problemas, relacionam-se com os hospitais, com médicos mais antigos, e aprendem nessa lógica de teoria, prática, reflexão, trabalho em conjunto. Há menos acúmulo de conhecimentos enciclopédicos e mais capacidade de pensar em determinada disciplina.

No Brasil, há uma discussão sobre a escola sem partido. O que acha da iniciativa?

Em certos meios sociais, tipicamente classes médias ou altas, e com fortes componentes religiosos, há essa ideia de proteger as crianças das misérias do mundo, da violência, da sexualidade, das drogas. Essas ideias de fechamento em determinada cultura são o contrário do que eu quero na educação. Quem não sai do seu lugar cultural, territorial, religioso não se educa. Prefiro que as minhas crianças, que têm acesso a todas as informações, discutam isso com seus educadores, a serem deixadas soltas, sem capacidade de refletir. A educação é discutir sobre essas matérias. Não é ser doutrinário. Educar é tomar partido, sempre, e respeitar a diferença e a opinião do outro. É uma grande hipocrisia não se preocupar com as crianças que convivem com violência. A maneira de proteger as crianças é conversar com elas. Os professores têm direto às suas ideias, como os alunos, pais, isso é democracia. Escola é diversidade, liberdade, diálogo.

Como você vê os métodos atuais de avaliação das escolas?

Esses indicadores são pobres, mas são úteis, precisam ser usados para melhorias, não para fazer ranking e punir. Mas não posso deixar de me indignar ao ver os alunos brasileiros na situação em que estão. Tem que haver uma revolta coletiva, de todos os partidos, de uma geração que diga “não aceitamos mais que a escola pública brasileira continue assim”. A pessoa acha a escola pública ruim e leva o filho para a particular. Isto não basta. Os pais não se interessam, as crianças são pobres, há fome, tudo é verdade, mas são elementos para compreendermos e agirmos melhor, não para justificarmos. Precisamos das coisas básicas: que as escolas abram todo dia, que os prédios estejam bem cuidados, que os professores tenham salários dignos. Não vale a pena muita teoria sem o básico, que inclui leitura, escrita, interpretação do mundo, diálogo.

Qual o papel do professor na vida dos estudantes e como a formação deve direcioná-lo?

Estou construindo um complexo de formação de professores na UFRJ, a convite do reitor. A ideia é fazer o que se faz num hospital universitário. Naquele complexo se integrarão todas as licenciaturas, ligadas às escolas públicas, para que haja diálogo constante entre elas. Vamos falar com o município. Isso existe em poucos lugares do mundo, a UFRJ será referência. Há um espaço sendo construído no Fundão. Os professores precisam trabalhar em conjunto, conhecer o que se faz em outras escolas.

Fonte: http://extra.globo.com/noticias/educacao/e-hora-de-uma-revolta-coletiva-pela-educacao-no-brasil-diz-educador-antonio-novoa-21148167.html#ixzz4dBjylzkS

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