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O futuro indefinido da Lava Jato

Este não tem sido um ano dos mais auspiciosos para a Operação Lava Jato. Tanto o Congresso quanto instâncias superiores da Justiça têm agido de modo a deter ou a dificultar o avanço das investigações.

Da concessão de habeas corpus no Supremo Tribunal Federal (STF) às propostas de anistia depois da reforma política, espalhou-se por Brasília o sentimento de que o país precisa mesmo, nos termos do senador Romero Jucá, “estancar a sangria” para seguir adiante.

A força-tarefa do MInistério Público Federal em Curitiba continua engajada, mas tem plena consciência de que o combate à corrupção já não depende mais dela ou do juiz Sérgio Moro. A Lava Jato se fragmentou, subiu de andar e enfrenta resistência em centros de poder com plena capacidade para desarticulá-la.

A população antes moblizada abandonou as ruas. Um primeiro sinal do desânimo com a classe política foi sentido neste fim de semana nas urnas do Amazonas, onde votos brancos e nulos beiraram um quarto dos votantes, no segundo turno das eleições para governador – um recorde.

A troca de comando na Procuradoria Geral da República e os novos entendimentos no STF sobre os direitos dos réus ou condenados darão em breve uma medida da perspectiva para a Lava Jato nos próximos meses.

Há basicamente três cenários possíveis. No menos provável, a operação volta a ganhar o ímpeto do passado. Noutro, também improvável, ela é desarticulada para abrir espaço à situação econômica na disputa eleitoral do ano que vem.

O mais provável é que ela siga em meio a um ambiente pantanoso, sem grandes conquistas ou novos troféus, mas também sem o desmantelamenteo. Os processos já existentes e provas já recolhidas são suficientes para dar uma sobrevida razoável às investigações.

Para evitar o destino da Operação Mãos Limpas – a corrupção na Itália piorou depois que a classe política conseguiu desarticulá-la por completo –, a Lava Jato precisa resgatar a capacidade de indignar e de mobilizar a população.

É a única forma de criar um certo constrangimento em deputados, senadores e ministros do STF interessados em manter o statu quo, que funciona como um incentivo à corrupção e à manutenção das relações de compadrio entre as empresas e o Estado.

No campo da opinião pública, uma boa notícia para a Lava Jato será a estreia, na semana que vem, do filme Polícia Federal – A lei é para todos, do diretor Marcelo Antunez, uma narrativa baseada nos dois primeiros anos da Lava Jato, entre os meses de março de 2014 e 2016.

O enredo revela como a investigação de um esquema de desvios ligado ao doleiro Alberto Youssef serviu como a ponta do novelo para que fosse deslindada a teia de falcatruas na Petrobras e o maior esquema de corrupção já investigado não apenas na história do Brasil, mas no mundo.

Misturando personagens fictícios, baseados nos policiais e procuradores, aos nomes conhecidos na força-tarefa e no cenário político nacional, o roteiro segue sobretudo o ex-diretor Paulo Roberto Costa, o empreiteiro Marcelo Odebrecht e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Num momento em que Lula desponta nas pesquisas de opinião como primeiro colocado nas eleições presidenciais do ano que vem, será inevitável fazer uma leitura política do filme. Embora os produtores e a direção afirmem não haver nenhuma preferência partidária, pesarão sobre eles as acusações previsíveis que petistas já lançaram contra os investigadores e a imprensa.

O mais importante, contudo, não é isso. Os próprios realizadores se encarregam, no final, de dar pistas de uma sequência, em que os alvos principais serão o PMDB e o presidente Michel Temer.

Numa leitura otimista, o filme é um resumo competente que põe a Lava Jato no devido lugar na história e trará nova energia para a mobilização no combate à corrupção. Numa leitura realista, será apenas a história de um passado que a cada dia deixamos mais para trás.

Fonte: http://g1.globo.com/mundo/blog/helio-gurovitz/post/o-futuro-indefinido-da-lava-jato.html

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