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Reféns de traficantes, PMs da UPP Prazeres acusam comando da unidade de omissão

Abandonados pelo Estado e por companheiros de farda. Foi assim que policiais militares da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) Prazeres, em Santa Teresa, região central do Rio, se sentiram na segunda-feira (20), quando foram feitos reféns por mais de 30 bandidos dentro da comunidade. Um deles chamou de “omissos” oficiais e supervisor da unidade que se recusaram a negociar a libertação de praças.

G1 conversou com dois dos sete militares que passaram quase uma hora em poder dos criminosos. A reportagem também ouviu outro PM que disse ter testemunhado tudo. Com medo de represálias dentro da corporação, os três pediram para não serem identificados.

Tudo parecia correr normalmente naquele dia. Por volta de 16h, os policiais estavam em seus postos na favela quando foram surpreendidos por mais de três dezenas de traficantes com fuzis e granadas que renderam duas equipes.

O ataque dos criminosos ocorreu em duas localidades da favela que costumavam ser policiadas durante o dia. O primeiro foi na Quadra dos Prazeres, a 50 metros da base da UPP.

O outro, no Beco do Agnaldo, ponto de interesse dos traficantes por ser um local considerado estratégico para a venda de drogas e de fácil deslocamento entre a parte alta e baixa do morro.

“Qualquer reação ali seria suicídio. Eles disseram: ‘Não tenta nada, se tentar a gente vai matar’. Depois, mandaram a gente ficar de joelho, retirar os coletes e retirar os armamentos e munições. E, em seguida, começaram a falar que queriam falar com o comandante”, disse um dos PMs.

Dois dos traficantes foram identificados como líderes do bando. Foram eles os responsáveis diretos pelas negociações para soltar as equipes. Um dos policiais conseguiu reconhecer os bandidos, conhecidos como “Sem Vulgo” e “Feijão”.

Outro criminoso considerado uma liderança do tráfico no morro, Carlos Antônio Almeida da Silva, de 34 anos, foi preso num apartamento em Copacabana, na Zona Sul, nesta quinta-feira (23).

‘Abandono’

Não foi a 1ª vez que criminosos dos Prazeres tentaram “orientar” que a UPP agisse de acordo com as regras do tráfico. PMs da unidade contaram que os bandidos já haviam, por meio de bilhetes, exigido que o comando retirasse policiais do Beco do Agnaldo e de outra localidade conhecida como Doce Mel.

Sem resposta, os traficantes decidiram fazer os PMs reféns. Na tentativa de negociação, os criminosos exigiram falar com um superior do comando da UPP para soltar as equipes. Apesar da insistência dos bandidos, nenhum oficial ou supervisor foi ao encontro do grupo.

“A gente não tinha mais o que falar, o que fazer. Eles, a todo momento, lembrando que o problema era com o comandante, com a supervisão”, disse um militar.

Os policiais ouvidos pelo G1 contaram que ficou a cargo do soldado Leonardo Alves, um praça, negociar com os traficantes a liberação dos companheiros.

Segundo um dos relatos, o soldado chegou a ser diretamente ameaçado pelos bandidos de ser levado para o alto do morro e ser morto. Sem o apoio de superiores, os militares se sentiram abandonados.

“Eu só pedi a Deus para sair dali, para ver a minha filha e minha esposa. Era a frustração de ninguém nos apoiar, misturada com o sentimento de nunca mais ver a sua familía”, desabafou outro PM.

“A todo momento os criminosos diziam que queriam falar com a supervisão, mas o tenente falou que não iria”, acrescentou um policial.

O oficial citado por ele é o subtenente Furtado, subcomandante da UPP Prazeres. Os PMs ouvidos afirmaram que tanto ele quanto o comandante da unidade, capitão Augusto, se negaram a negociar diretamente com os traficantes a soltura dos subordinados.

Havia ainda outro policial que poderia responder pela equipe feita refém: o cabo Pio, que naquele dia estava como supervisor da unidade. Assim como os oficiais, o cabo também se recusou a falar com os criminosos.

G1 questionou a Polícia Militar sobre a atuação dos oficiais. A reportagem quis saber se evitar negociar a soltura dos subordinados diretamente com os traficantes estaria definido em algum protocolo. Também foi solicitada entrevista com os oficiais para ouvir a versão deles, mas, até a publicação desta matéria, não houve retorno.

Por meio da assessoria de imprensa, a PM informou que “vem atuando para combater os criminosos com ações concretas e efetivas”. A corporação disse ainda que “o Batalhão de Operações Policiais Especiais tem atuado na comunidade”, o que resultou na prisão desta quinta-feira de uma das lideranças do tráfico nos Prazeres.

Fonte original: https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/refens-de-traficantes-pms-da-upp-prazeres-acusam-comando-da-unidade-de-omissao.ghtml

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